terça-feira, 15 de abril de 2014

Sobre narizes

"(...) o nariz nada mais é que a extremidade de um cano que avança para poder levar oxigênio aos pulmões (...)" - KUNDERA, M. In: A Insustentável Leveza do Ser.

Tenho uma questão pessoal com narizes. Na verdade, com a sua existência.

Nem sempre eles existem para mim.

Desde sempre, nem todas as pessoas tem nariz. Eu quase nunca vejo o nariz de ninguém. Passo semanas e até meses sem ver narizes. No mundo formado a partir da minha percepção as pessoas existem a despeito do seu nariz.

Nenhum dos meus desenhos infantis tinha nariz. Ou melhor, quase nenhum. Todos os desenhos animais tinham nariz. Nenhum humano tinha. Já li em algum lugar que crianças que desenham a si mesmas sem nariz sentem-se sufocadas. Levando-se em conta que eu fui uma criança asmática, esse raciocínio tem sua validade, e nenhum autorretrato meu tinha nariz. Por essa lógica, eu também seria um potencial sufocador, e embora eu nunca tenha sufocado ninguém no sentido literal, vez ou outra eu ouço de algumas pessoas que eu as "sufoco". Ouvi também que o nariz representa o self, e que ao ignorá-lo, eu estaria ignorando o self alheio, o que já faz mais sentido pra mim. No entanto, tem algo mais intrigante nessa minha questão: há apenas dois tipos de nariz visíveis: os belos e os horríveis.

Explico: via de regra eu só vou reparar em narizes se eles forem muito bonitos, ou muito feios. Não é algo que eu racionalize, mas é estranho, porque a priori eu só vou visualizar o nariz ele estiver em um desses polos, seja ao vivo, seja por tv ou foto. De outro modo ele é praticamente invisível. Já convivi com pessoas durante anos sem me dar conta que elas tinham piercing no nariz simplesmente porque seus narizes não existiam no meu mundo. Na verdade, embora eu possa passar horas falando de características como olhos ou bocas, eu sou incapaz de descrever o nariz da esmagadora maioria das pessoas que eu conheço.

Essa percepção não é algo que exatamente mude a minha vida, mas divide as experiências em dois tipos: o incômodo de ver narizes feios o e prazer de ver narizes bonitos.

O incômodo é simples: o nariz feio existe e chama a minha atenção. Normalmente eles ficam lá no meio da cara das pessoas dizendo "Ei, olha pra mim!" enquanto eu estou conversando com elas. Usualmente o que me faz achar um nariz feio é assimetria, seja no próprio nariz ou causada por ele. Tamanho não é regularmente um problema, embora desproporção possa ser, e é mais fácil lidar com isso quando se trata de um nariz feio em uma pessoa bonita, já que a atenção pode ser desviada para outra parte do rosto. Em pessoas feias fica mais complicado não ficar simplesmente encarando aquele nariz feio e pensando em quanto eu preferia que ele não existisse no meu mundo.

Já o prazer, ah, o prazer de ver um belo nariz! É fascinante ver, ao longe, uma pessoa surgindo por trás de um belo nariz! Um nariz formoso e harmônico dizendo "perceba-me, eu existo!". Há belos narizes de todo tipo, mas há um tipo que me encanta mais que todos: levemente arrebitado. Obviamente não é todo nariz arrebitado que vai me encantar e eu cansei de ver horríveis narizes arrebitados, semelhantes a buracos de tomada ou focinhos de porcos, mas narizes levemente arrebitados fazendo uma elegante curva com o lábio superior são a perfeição. Possivelmente algum artista renascentista já nomeou esse tipo de nariz e ele deve ter algum nome funcional em italiano do quattrocento. Enquanto não descubro o termo, aprecio os belos e harmoniosos narizes sempre que os vejo. Fico imaginando como a proporção áurea se encaixa entre o arco do cupido, o filtro labial e a raiz do nariz e divago, apreciando a beleza artística dessas protuberância.

Embora Aristóteles tenha usado justamente as formas dos narizes como meios para estabelecer relações entre caracteres físicos e psicológicos na sua Fisiognomonia, é importante ressaltar que para mim isso nunca se tratou de uma morfopsicologia inata. Nunca julguei a personalidade de ninguém pelo seu nariz, fosse feio, fosse belo, e o mesmo vale para qualquer parte do corpo. Há pessoas de belo coração com narizes não-tão-belos-assim e o contrário também é verificado, e, ao meu ver, ficar procurando esses essas relações pode ser seriamente pernicioso.

O meu nariz é também um nariz invisível. Lamentavelmente não é um nariz bonito. Na verdade é feio: grande e para baixo, com uma raiz grande e pronunciada. Ao menos não me chama a atenção e eu não sou obrigado a vê-lo todo o tempo.

Ao fim, me dou conta de que muito mais do que uma protuberância em um tubo que vai até os pulmões ou um órgão do sistema olfativo, o nariz não só me traz de volta memórias através do olfato, no meu mundo o nariz é também um passaporte para a memória: um nariz visto é um nariz que dificilmente será esquecido.












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