sexta-feira, 29 de agosto de 2014

"O que me faz pular" (Naoki Higashida)

Ainda estou sob efeito do que parecia apenas mais um dia normal no trabalho. Estava eu pegando livros para organizar e entre muitos outros um discretamente chamou a minha atenção. Nada mais que uma bela capa azul e um autor de nome oriental que eu jamais tinha ouvido falar. Nenhum clássico, nenhum grande lançamento, nada em especial além de um título absolutamente vago. Mas havia algo ali... 



Decido ler a contracapa e vejo que há um comentário do David Mitchell, autor de Cloud Atlas. Não poderia se tratar de um livro qualquer. Volto para a capa e vejo que a introdução do livro é também do Mitchell. Instantaneamente a leitura da introdução torna-se obrigatória. Pouco antes de entrar de vez no livro, descubro nas orelhas que trata-se de um relato de um garoto de 13 anos que sofre de autismo severo. 

E o livro começa:

"O autor deste livro, de treze anos, convida você, leitor, a imaginar uma vida cotidiana em que sua capacidade de falar lhe seja tirada." 
Daí pra frente, o que se segue é uma enxurrada emocional, honesta e crua, em que Mitchell narra como ele e sua esposa, pais de um menino autista, chegaram até o livro original em japonês, realizando sua tradução ao inglês e de que maneira o livro é situado dentro do vasto material sobre autismo a que pais, parentes, professores e profissionais da saúde tem acesso. Nesse momento, não se trata apenas de um dos autores contemporâneos mais relevantes em língua inglesa, trata-se de um pai que busca comunicação com seu filho e que conseguiu, através do relato de Naoki atingir um novo patamar em interação com seu filho amado.

O livro segue uma estrutura bem simples de pergunta-e-resposta, onde as principais perguntas a respeito do autismo são respondidas por Naoki. Questões como "Como você escreve essas frases?", "O que se passa na sua cabeça quando você está eufórico?", "Por que você mexe seus braços e pernas dessa maneira tão esquisita?" ou "Por que você nunca para quieto?" são respondidas com a honestidade e singeleza de uma criança inteligente e sensível, que está se adaptando ao mundo como qualquer outra criança, e, no entanto, demanda todo um cuidado e carinho especiais, pois está submetida a uma série de dificuldades particulares e condições absolutamente inimagináveis a indivíduos normais, como as dificuldades em usar roupas adequadas à temperatura, entender a passagem de tempo ou lidar com os mais simples imprevistos do cotidiano. As respostas são entremeadas por apelos de cuidado e carinho:
"Nós choramos, berramos, batemos e quebramos. Ainda assim, não queremos que desistam da gente. Por favor, continuem a lutar ao nosso lado. Nessas situações, nós é que mais sofremos, e queríamos muito nos libertar das correntes que nos prendem"
Além das respostas às perguntas, Naoki apresenta também alguns contos curtos em complemento às suas respostas, e nesses contos somos capazes de ver com nossos próprios olhos a capacidade poética afetiva de um escritor espontâneo e sincero que vê o mundo de um ponto de vista completamente diferente. O texto seguinte complementa a resposta à pergunta "Você gostaria de ser normal?":
O terráqueo e o o astronautista.
Eu estava viajando de avião para Hokkaido com minha família. Era a primeira vez que eu voava em muito tempo, e fiquei surpreso ao descobrir que a sensação da gravidade agindo em meu corpo era muito agradável. Não tinha reparado nisso em minha primeira viagem, pois eu era muito pequeno na época. De qualquer modo, me veio à cabeça este conto muito curto...
Era uma vez, num planeta pequeno, verde e tranquilo.
Astronautista: Então, bem-vindo ao meu mundo
Terráqueo: Você não se sente pesado? Para mim, é como se tivessem amarrado muitos quilos em meus braços e pernas.
Astronautista: Ah, mas no seu planeta eu sempre me sinto assim, como se estivesse flutuando no espaço, sem peso algum.
Terráqueo: Ok. Agora entendo você. Entendo mesmo.

Se existisse em algum lugar um planeta com gravidade perfeita para pessoas com autismo, então poderíamos nos mover para qualquer lugar livremente.
"
  
Ao final do livro, encontra-se um conto intitulado "Estou bem aqui", um retrato vívido do drama e da pureza da perspectiva da vida de uma criança. É de longe uma das coisas mais tocantes que eu já li.

A pureza e simplicidade do texto de imprimem ao livro um ritmo extremamente fluido e de fácil compreensão a qualquer leitor, ao mesmo tempo que o prende, resposta a resposta, na sua apresentação de uma perspectiva sensorial e emocional completamente além da nossa compreensão. A forma como a temática é abordada também faz com que o livro desperte interesse em leitores sem envolvimento com a temática do autismo, como eu, que até o presente momento jamais imaginaria ler um livro sobre o assunto, quanto menos devorá-lo com a intensidade e velocidade com que o fiz.

Através das respostas de Naoki um novo mundo se desvela à nossa frente, um mundo de adaptação, tentativas e perseverança, onde compreensão, paciência e amor são a chave para a vivência dentro da normalidade, um Universo a que eu e você temos a bênção de pertencermos sem sequer nos dar conta.



Leia aqui introdução do livro por David Mitchel.



sábado, 26 de julho de 2014

Quartos do Calvin e Haroldo (Calvin and Hobbes)

Se eu já tenho vontade de ter um quarto do Calvin e Haroldo hoje em dia, quando tiver um filho farei o possível para que ele tenha! E hoje bateu uma vontade de ver alguns e bem... é isso.














quarta-feira, 23 de julho de 2014

Clássicos



"Os homens às vezes falam como se o estudo dos clássicos tivesse aberto caminho para estudos mais modernos e práticos; mas o estudante aventuroso sempre estudará os clássicos, em qualquer língua que possam estar escritos e por mais antigos que possam ser. Pois o que são os clássicos se não o registro dos pensamentos mais nobres do homem. São os únicos oráculos que não caducaram, e há neles respostas às mais moderna indagação que Delfos e Donona jamais deram. Se fosse por isso, poderíamos deixar de lado o estudo da Natureza só porque ela é antiga. Ler bem, isto é, ler livros verdadeiros com espírito verdadeiro, é um exercício nobre, e que exigirá do leitor mais do que qualquer exercício valorizado pelos costumes do momento. Requer um treino como o dos atletas, a dedicação constante quase da vida toda a esse objetivo" THOREAU, H. D. in Walden, p.104

terça-feira, 15 de abril de 2014

Sobre narizes

"(...) o nariz nada mais é que a extremidade de um cano que avança para poder levar oxigênio aos pulmões (...)" - KUNDERA, M. In: A Insustentável Leveza do Ser.

Tenho uma questão pessoal com narizes. Na verdade, com a sua existência.

Nem sempre eles existem para mim.

Desde sempre, nem todas as pessoas tem nariz. Eu quase nunca vejo o nariz de ninguém. Passo semanas e até meses sem ver narizes. No mundo formado a partir da minha percepção as pessoas existem a despeito do seu nariz.

Nenhum dos meus desenhos infantis tinha nariz. Ou melhor, quase nenhum. Todos os desenhos animais tinham nariz. Nenhum humano tinha. Já li em algum lugar que crianças que desenham a si mesmas sem nariz sentem-se sufocadas. Levando-se em conta que eu fui uma criança asmática, esse raciocínio tem sua validade, e nenhum autorretrato meu tinha nariz. Por essa lógica, eu também seria um potencial sufocador, e embora eu nunca tenha sufocado ninguém no sentido literal, vez ou outra eu ouço de algumas pessoas que eu as "sufoco". Ouvi também que o nariz representa o self, e que ao ignorá-lo, eu estaria ignorando o self alheio, o que já faz mais sentido pra mim. No entanto, tem algo mais intrigante nessa minha questão: há apenas dois tipos de nariz visíveis: os belos e os horríveis.

Explico: via de regra eu só vou reparar em narizes se eles forem muito bonitos, ou muito feios. Não é algo que eu racionalize, mas é estranho, porque a priori eu só vou visualizar o nariz ele estiver em um desses polos, seja ao vivo, seja por tv ou foto. De outro modo ele é praticamente invisível. Já convivi com pessoas durante anos sem me dar conta que elas tinham piercing no nariz simplesmente porque seus narizes não existiam no meu mundo. Na verdade, embora eu possa passar horas falando de características como olhos ou bocas, eu sou incapaz de descrever o nariz da esmagadora maioria das pessoas que eu conheço.

Essa percepção não é algo que exatamente mude a minha vida, mas divide as experiências em dois tipos: o incômodo de ver narizes feios o e prazer de ver narizes bonitos.

O incômodo é simples: o nariz feio existe e chama a minha atenção. Normalmente eles ficam lá no meio da cara das pessoas dizendo "Ei, olha pra mim!" enquanto eu estou conversando com elas. Usualmente o que me faz achar um nariz feio é assimetria, seja no próprio nariz ou causada por ele. Tamanho não é regularmente um problema, embora desproporção possa ser, e é mais fácil lidar com isso quando se trata de um nariz feio em uma pessoa bonita, já que a atenção pode ser desviada para outra parte do rosto. Em pessoas feias fica mais complicado não ficar simplesmente encarando aquele nariz feio e pensando em quanto eu preferia que ele não existisse no meu mundo.

Já o prazer, ah, o prazer de ver um belo nariz! É fascinante ver, ao longe, uma pessoa surgindo por trás de um belo nariz! Um nariz formoso e harmônico dizendo "perceba-me, eu existo!". Há belos narizes de todo tipo, mas há um tipo que me encanta mais que todos: levemente arrebitado. Obviamente não é todo nariz arrebitado que vai me encantar e eu cansei de ver horríveis narizes arrebitados, semelhantes a buracos de tomada ou focinhos de porcos, mas narizes levemente arrebitados fazendo uma elegante curva com o lábio superior são a perfeição. Possivelmente algum artista renascentista já nomeou esse tipo de nariz e ele deve ter algum nome funcional em italiano do quattrocento. Enquanto não descubro o termo, aprecio os belos e harmoniosos narizes sempre que os vejo. Fico imaginando como a proporção áurea se encaixa entre o arco do cupido, o filtro labial e a raiz do nariz e divago, apreciando a beleza artística dessas protuberância.

Embora Aristóteles tenha usado justamente as formas dos narizes como meios para estabelecer relações entre caracteres físicos e psicológicos na sua Fisiognomonia, é importante ressaltar que para mim isso nunca se tratou de uma morfopsicologia inata. Nunca julguei a personalidade de ninguém pelo seu nariz, fosse feio, fosse belo, e o mesmo vale para qualquer parte do corpo. Há pessoas de belo coração com narizes não-tão-belos-assim e o contrário também é verificado, e, ao meu ver, ficar procurando esses essas relações pode ser seriamente pernicioso.

O meu nariz é também um nariz invisível. Lamentavelmente não é um nariz bonito. Na verdade é feio: grande e para baixo, com uma raiz grande e pronunciada. Ao menos não me chama a atenção e eu não sou obrigado a vê-lo todo o tempo.

Ao fim, me dou conta de que muito mais do que uma protuberância em um tubo que vai até os pulmões ou um órgão do sistema olfativo, o nariz não só me traz de volta memórias através do olfato, no meu mundo o nariz é também um passaporte para a memória: um nariz visto é um nariz que dificilmente será esquecido.












sábado, 15 de fevereiro de 2014

Caminhos entre páginas

Talvez eu leia pra viajar,
trilhe caminhos por entre as páginas
até os cheiros, as memórias, os lugares e as pessoas e rever parte de mim

Se for isso mesmo, meu coração quer estar na Grécia Antiga e na Século XIX.

Princípio


Para ela a âncora é a amarração, o impedimento de seguir em frente, é estar fixo, preso. Para ela a âncora é um peso que não só morto, mata.

Para ele a âncora é a salvaguarda em meio ao temporal, o pilar em meio à tempestade, a esperança do fim da tormenta e o descanso no porto seguro. Um peso que salva.

A âncora é, também, isso tudo.