Ainda estou sob efeito do que parecia apenas mais um dia normal no trabalho. Estava eu pegando livros para organizar e entre muitos outros um discretamente chamou a minha atenção. Nada mais que uma bela capa azul e um autor de nome oriental que eu jamais tinha ouvido falar. Nenhum clássico, nenhum grande lançamento, nada em especial além de um título absolutamente vago. Mas havia algo ali...
Decido ler a contracapa e vejo que há um comentário do David Mitchell, autor de Cloud Atlas. Não poderia se tratar de um livro qualquer. Volto para a capa e vejo que a introdução do livro é também do Mitchell. Instantaneamente a leitura da introdução torna-se obrigatória. Pouco antes de entrar de vez no livro, descubro nas orelhas que trata-se de um relato de um garoto de 13 anos que sofre de autismo severo.
E o livro começa:
"O autor deste livro, de treze anos, convida você, leitor, a imaginar uma vida cotidiana em que sua capacidade de falar lhe seja tirada."
Daí pra frente, o que se segue é uma enxurrada emocional, honesta e crua, em que Mitchell narra como ele e sua esposa, pais de um menino autista, chegaram até o livro original em japonês, realizando sua tradução ao inglês e de que maneira o livro é situado dentro do vasto material sobre autismo a que pais, parentes, professores e profissionais da saúde tem acesso. Nesse momento, não se trata apenas de um dos autores contemporâneos mais relevantes em língua inglesa, trata-se de um pai que busca comunicação com seu filho e que conseguiu, através do relato de Naoki atingir um novo patamar em interação com seu filho amado.
O livro segue uma estrutura bem simples de pergunta-e-resposta, onde as principais perguntas a respeito do autismo são respondidas por Naoki. Questões como "Como você escreve essas frases?", "O que se passa na sua cabeça quando você está eufórico?", "Por que você mexe seus braços e pernas dessa maneira tão esquisita?" ou "Por que você nunca para quieto?" são respondidas com a honestidade e singeleza de uma criança inteligente e sensível, que está se adaptando ao mundo como qualquer outra criança, e, no entanto, demanda todo um cuidado e carinho especiais, pois está submetida a uma série de dificuldades particulares e condições absolutamente inimagináveis a indivíduos normais, como as dificuldades em usar roupas adequadas à temperatura, entender a passagem de tempo ou lidar com os mais simples imprevistos do cotidiano. As respostas são entremeadas por apelos de cuidado e carinho:
"Nós choramos, berramos, batemos e quebramos. Ainda assim, não queremos que desistam da gente. Por favor, continuem a lutar ao nosso lado. Nessas situações, nós é que mais sofremos, e queríamos muito nos libertar das correntes que nos prendem"
Além das respostas às perguntas, Naoki apresenta também alguns contos curtos em complemento às suas respostas, e nesses contos somos capazes de ver com nossos próprios olhos a capacidade poética afetiva de um escritor espontâneo e sincero que vê o mundo de um ponto de vista completamente diferente. O texto seguinte complementa a resposta à pergunta "Você gostaria de ser normal?":
O terráqueo e o o astronautista.
Eu estava viajando de avião para Hokkaido com minha família. Era a primeira vez que eu voava em muito tempo, e fiquei surpreso ao descobrir que a sensação da gravidade agindo em meu corpo era muito agradável. Não tinha reparado nisso em minha primeira viagem, pois eu era muito pequeno na época. De qualquer modo, me veio à cabeça este conto muito curto...
Era uma vez, num planeta pequeno, verde e tranquilo.
Astronautista: Então, bem-vindo ao meu mundo
Terráqueo: Você não se sente pesado? Para mim, é como se tivessem amarrado muitos quilos em meus braços e pernas.
Astronautista: Ah, mas no seu planeta eu sempre me sinto assim, como se estivesse flutuando no espaço, sem peso algum.
Terráqueo: Ok. Agora entendo você. Entendo mesmo.
Se existisse em algum lugar um planeta com gravidade perfeita para pessoas com autismo, então poderíamos nos mover para qualquer lugar livremente."
Ao final do livro, encontra-se um conto intitulado "Estou bem aqui", um retrato vívido do drama e da pureza da perspectiva da vida de uma criança. É de longe uma das coisas mais tocantes que eu já li.
A pureza e simplicidade do texto de imprimem ao livro um ritmo extremamente fluido e de fácil compreensão a qualquer leitor, ao mesmo tempo que o prende, resposta a resposta, na sua apresentação de uma perspectiva sensorial e emocional completamente além da nossa compreensão. A forma como a temática é abordada também faz com que o livro desperte interesse em leitores sem envolvimento com a temática do autismo, como eu, que até o presente momento jamais imaginaria ler um livro sobre o assunto, quanto menos devorá-lo com a intensidade e velocidade com que o fiz.
Através das respostas de Naoki um novo mundo se desvela à nossa frente, um mundo de adaptação, tentativas e perseverança, onde compreensão, paciência e amor são a chave para a vivência dentro da normalidade, um Universo a que eu e você temos a bênção de pertencermos sem sequer nos dar conta.
Leia aqui introdução do livro por David Mitchel.
